Graciosa, Açores, Portugal

Atualizado: 16 de nov. de 2021

O programa da nossa viagem aos Açores em agosto também contemplava uma visita de dois dias à Graciosa, a ilha mais pequena e desconhecida do grupo central do arquipélago.


Vista do ar, não é mais do que um pontinho negro no meio do imenso oceano Atlântico. Contudo, a sua aparente reduzida dimensão de 12,5 km de comprimento por 7,5 km de largura não faz justiça ao verdadeiro potencial e diversidade da ilha.


Nestes tempos incertos, aqui vive-se uma vida tranquila que acompanha o ritmo das estações, quase isolada do mundo.


Vista de São Mateus e ilhéu na Graciosa, Acores
Ilhéu da Praia de São Mateus.

É uma ilha com pouco mais de 4 mil habitantes, as pessoas conhecem-se, há proximidade e calor quando recebem. Qualquer habitante local ficará feliz por partilhar as histórias e aventuras de cada lugar. Nós tivemos a sorte de ser acompanhadas por uma guia incansável, nascida e criada na Graciosa. A Filipa da Azores Touch estava à nossa espera no aeroporto e levou-nos a conhecer a parte este da ilha.


“Na luz matutina e fria das quatro horas tenho diante de mim um espectáculo único: (…) a Graciosa dum verde muito tenro acabando dum lado e do outro em penhascos decorativos…”

As Ilhas Desconhecidas, Raúl Brandão, 1926


As paragens ao longo da estrada sucediam-se entre miradouros, faróis e ermidas, tentámos avistar o Paínho do Monteiro, que nidifica no ilhéu da Praia de São Mateus, mas revelou-se impossível, afinal é a ave marítima mais pequena do mundo!


Chegámos à freguesia de São Mateus, vislumbrámos o porto por onde chegam os ferries da Terceira e São Jorge e o areal negro da praia onde alguns banhistas disfrutavam do mar calmo naquele dia quente de agosto.


As fachadas em São Mateus; Moinho de inspiração flamenca; Lapas e Quijo da Ilha de entrada no restaurante Estrela do Mar; Graciosa Resort.

Seguimos entre moinhos de vento com cúpulas vermelhas, de inspiração flamenca, até ao nosso seguinte destino: a discreta fábrica de Queijadas da Praia da Graciosa.


O pequeno doce de massa fina e estaladiça com um recheio de gema de ovos, açúcar e leite envolve toda a família Bettencourt há anos. Esperámos pacientemente pela fornada que estava prestes a sair, mas não fomos tão pacientes a esperar que as queijadas arrefecessem. O cheiro que foi invadindo a cozinha antevia um sabor único e delicioso. Levámos uma caixa connosco e encomendámos outra para o dia seguinte.


Aqui as estradas serpenteiam por entre muros de pedra basáltica negra. As vinhas estão encurraladas em pequenos currais, protegidas dos ventos marítimos e das intempéries, o gado pastoreia nos campos e atravessa as estradas livremente, causando o único trânsito na ilha.


As pausas para as refeições eram momentos de grande prazer. Qualquer restaurante vos irá servir peixe fresquíssimo e carne tenra. O fundo do mar que circunda a ilha está repleto de iguarias e a criação de gado é umas das principais atividades económicas. Para sobremesa, elegíamos sempre a meloa da Graciosa. Tem reputação em todas as ilhas e não pode faltar, quer seja na mesa de pequeno-almoço, almoço ou jantar.


As paragens nos miradouros ao longo da estrada são obrigatórias; Caldeirinha; Piscinas do Carapacho; Vista da Caldeira desde a Furna da Maria Encantada.

Chegadas ao complexo vulcânico da Caldeira da Graciosa, tive a sensação de que aqui a natureza resiste em ser adulterada, é o homem que se adapta às suas vontades. A lenda da Furna da Maria Encantada conta isso mesmo, na iminência de uma explosão do vulcão, Maria decidiu esperar pelo seu amante em vez de fugir para um local seguro com o marido, a lava efervescente foi impiedosa e destruiu tudo à sua passagem.

De seguida, descemos até às entranhas da terra na Furnas do Enxofre, acompanhadas por um silêncio enternecedor. O lago de água cristalina e sulfurosa, ao qual não nos deixam aproximar devido à sua envolvência altamente tóxica, foi o que mais me atraiu.


Este ambiente inquietante e misterioso, onde se sente o calor do interior da terra, maravilhou-nos. Demorámo-nos mais do que previsto, especialmente a fotógrafa da Condé Nast Traveler, carregadíssima, com tripés, lentes e câmaras, fascinada com tanto por onde disparar e captar. A Filipa olhava para o relógio, impaciente, ainda tinha tanto para nos mostrar!


Ao fim da tarde, com o sol a pôr-se no horizonte, chegámos ao topo da Caldeirinha. Pelo uso do diminutivo, tão característico da língua portuguesa, sabíamos de antemão que nos esperava uma versão em miniatura do complexo da Caldeira. Mais uma vez, a pequenez em dimensão não faz jus à beleza desta cratera vulcânica. Deparamo-nos com um horror vacui de cor: centenas de espécies de plantas cobrem as paredes. Nesta fértil terra vulcânica tudo cresce, tudo floresce.


Santa Cruz da Graciosa; A arquitetura típica da vila; Gado bovino; Preparação da massa das Queijadas da Praia da Graciosa.

Durante o segundo dia na ilha branca, acompanhou-nos uma aura enigmática concedida pela neblina constante. Deixámos para trás as suaves colinas para sermos recebidas por paisagens mais agrestes.


O norte da ilha brinda-nos com escarpas abruptas e piscinas naturais no meio de um mar revoltado nos Poceirões, formações rochosas incríveis com o contorno de uma baleia gigante a surgir das profundezas do oceano na Ponta da Barca, terra avermelhada e quente na Praia do Barro Vermelho e encostas com as diferentes camadas sedimentárias perfeitamente visíveis no Porto Afonso.


Os fenómenos naturais e geológicos desta ilha imaculada e intocada, são o deleite para qualquer cientista de renome, mas também para curiosos e aficionados como nós, ninguém lhes fica indiferente.

Piscinas naturais dos Poceirões em Guadalupe; Barco de pescadores numa gruta natural em Porto Afonso; Praia do Barro Vermelho; Furna do Enxofre.

Esta visita aos Açores também incluiu 3 dias na Terceira, podem ler o roteiro completo aqui.


Durante cinco dias visitámos lugares remotos, pacíficos e encantadores. Ao regressar, ficamos sempre com a sensação de abandonar um mundo em que se pode esquecer o tempo.

 

Como chegar How to get there

Desde a Terceira até à Graciosa são 20 minutos de avião com a Sata. Durante o verão também há um ferry que faz a travessia em 3 horas, aproximadamente.

Como se deslocar How to move around

Tal como nas restantes ilhas, alugar um carro é a melhor forma de conhecer a Graciosa.

Onde dormir Where to sleep

Graciosa Resort a 5 minutos do centro de Santa Cruz da Graciosa, o hotel contruído em pedra basáltica é absorvido pela paisagem que o rodeia. Tem piscina exterior. graciosaresort.com/

Onde comer Where to eat

Estrela do Mar sob uma encosta, neste restaurante comemos lapas, cracas e queijo da ilha de entrada, peixe grelhado e polvo de prato principal. Não houve espaço para a sobremesa. www.facebook.com/pages/category/Food---Beverage/Restaurante-estrela-do-mar-

Dolphin este restaurante no Carapacho apaixona pela vista da esplanada sob oceano. O menu não é extenso, mas qualquer prato é garantidamente de qualidade. www.facebook.com/pages/Dolphin

Costa do Sol um restaurante no centro de Santa Cruz, muito acolhedor e com ótimas opções. O meu hambúrguer em bolo lêvedo estava delicioso. www.facebook.com/costadosol

O que visitar What to visit

Azores Touch esta empresa de animação turística também tem programas na Graciosa. Contámos sempre com a Filipa para nos guiar pela ilha. www.azorestouch.com/

Praia de São Mateus é a única praia de areia na ilha.

Termas e piscinas do Carapacho de um azul turquesa intenso, esta zona balnear promete horas de banhos de mar.

Furna do Enxofre é possível descer ao interior desta impressionante caverna através de uma torre de 37 m com uma escadaria em caracol de 183 degraus. Lianas e heras pendem pela chaminé vulcânica e acompanham-nos na descida. O interior da caverna tem as paredes esculpidas pela lava em fúria e o teto tem uma abóbada circular perfeita. Para além da lagoa de água límpida e fria contém uma fumarola com água lamacenta a borbulhar com o calor vindo do interior da terra. Aberta até às 18h. Preço: 5€. parquesnaturais.azores.gov.pt/pt/graciosa/

Furna da Maria Encantada situada muito perto da Furna do Enxofre, este tubo de lava perfeito tem associada uma lenda de amores proibidos com finais trágicos. Daqui têm a vista completa da Caldeira da Graciosa.

Caldeirinha é um pequeno algar coberto de densa vegetação com uma profundidade de 37 m. Uma vez por ano, os bombeiros organizam descidas em rappel para arrancar das paredes da caldeira a Roca da Velha, uma planta invasora que destrói a flora autóctone.

Museu da Graciosa instalado num antigo granel, lagar e adega, este local recria a história, etnografia e manifestações culturais da ilha. Aberto até às 17.30h. Preço: 1€. www.museu-graciosa.azores.gov.pt/

Monte de N. Sr.ª da Ajuda promete a melhor vista sobre Santa Cruz. É um local de peregrinação onde se erguem três ermidas do séc. XVII. Uma delas assemelha-se propositadamente a um forte para ser avistada ao longe e demover os piratas das suas incursões.

Porto Afonso um benfeitor da ilha chamado Afonso decidiu construir este pequeno porto de pesca e assim ficou batizado. A encosta é impressionante pois são visíveis as camadas geológicas construtivas da ilha em diferentes tonalidades de terracota. Nas grutas naturais ainda se encontram pequenos barcos de pesca que ali ficavam resguardados da fúria do mar.

Piscinas naturais dos Poceirões na freguesia de Guadalupe há diversas piscinas encurraladas no meio de rochas negras e escarpadas. O acesso faz-se por uma escadaria e há uma piscina mais pequena, com o fundo de areia, para as crianças.

Praia do Barro Vermelho na costa norte da ilha, a cor da areia fortemente avermelhada confere uma singularidade extraordinária a esta praia. O fundo do mar é rochoso. Tem um parque de merendas.

Farol da Ponta da Barca com 23 metros de altura, este farol ergue-se junto à costa para guiar os navegantes noturnos. Nesta baía encontra-se também o ilhéu da Baleia, a erupção vulcânica que deu origem a esta formação geológica fez surgir do fundo do oceano a silhueta perfeita deste gigante dos mares.

Onde comprar Where to shop

Fábrica de Queijadas da Praia da Graciosa um pequeno doce em forma de estrela típico da Graciosa, é um negócio familiar de produção artesanal que, por agora, funciona por encomenda. Em breve irão abrir um espaço de venda ao público. É o souvenir perfeito para levar para casa. www.facebook.com/QueijadasDaPraiaDaGraciosa/

 

Aqui está o mapa com todos os locais mencionados no post:







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